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O silêncio também pode ser projetado?

Quando pensamos em uma casa, quase sempre imaginamos aquilo que podemos ver, como as paredes, a luz, os móveis e as texturas. Raramente pensamos nos sons ou, talvez mais precisamente, na ausência deles. No entanto, basta passar uma noite em um quarto excessivamente ruidoso ou tentar conversar em uma sala onde tudo produz eco para perceber que o conforto de um ambiente também é construído pelos ouvidos. O silêncio, quando existe, quase nunca chama atenção, mas sua ausência é percebida imediatamente.

Nem todo silêncio significa ausência de sons

Uma casa viva produz sons: há passos pelo corredor, louças sendo organizadas na cozinha, conversas entre pessoas que dividem o mesmo espaço, a chuva tocando a cobertura e o vento atravessando as árvores do jardim. Esses sons fazem parte da experiência de habitar. O desconforto costuma surgir quando os ruídos deixam de acompanhar a vida e passam a competir com ela. É o trânsito que invade a sala, o televisor que precisa aumentar o volume para vencer o barulho ao redor e a conversa interrompida porque ninguém consegue ouvir o outro. O silêncio que buscamos na arquitetura não elimina a vida; ele apenas permite que ela seja ouvida com mais clareza.

O conforto também é sonoro

Assim como a luz influencia a maneira como percebemos um ambiente, o som também molda nossa experiência cotidiana. Alguns espaços convidam naturalmente à conversa, outros favorecem a concentração; há ambientes que acolhem o descanso e aqueles que parecem manter o corpo em estado permanente de alerta. Essas sensações nem sempre têm relação com a decoração ou com o tamanho dos espaços. Frequentemente, elas são resultado de escolhas feitas muito antes de a casa ser ocupada, tais como a posição dos ambientes, a relação entre as áreas sociais e íntimas, os materiais utilizados e as aberturas. Cada decisão contribui diretamente para uma experiência sonora mais confortável.

O que realmente merece ser ouvido

Talvez uma das maiores qualidades da arquitetura seja decidir o que merece chegar até nós: o riso de quem está na sala, os pássaros no início da manhã, a chuva durante uma tarde tranquila ou a música escolhida para um jantar em família. Ao mesmo tempo, uma boa arquitetura procura reduzir aquilo que interrompe esses momentos sem acrescentar nada à experiência de viver. Projetar também é fazer escolhas sobre aquilo que permanecerá presente, inclusive os sons.

A arquitetura também acolhe o invisível

Há aspectos da arquitetura que podem ser fotografados, enquanto outros só podem ser percebidos quando são vividos. O silêncio pertence a esse segundo grupo. Ele não aparece na planta, não chama atenção durante uma visita rápida e quase nunca é lembrado nas descrições de uma casa. Ainda assim, está presente em cada noite bem dormida, em cada conversa tranquila e em cada momento de descanso. Talvez seja por isso que algumas casas nos fazem sentir acolhidos antes mesmo de entendermos o motivo, pois elas foram pensadas não apenas para serem vistas, mas para serem vividas com todos os sentidos.

Agora, faça uma pequena pausa. Vá buscar uma água, preparar um café ou simplesmente esticar as pernas, mas volte logo.

Até aqui, conversamos sobre decisões, conforto, tempo, luz, proporções e silêncio. Todos esses elementos fazem parte da arquitetura, embora muitos deles permaneçam invisíveis aos nossos olhos. No próximo artigo, vamos abrir uma nova etapa desta jornada. Vamos entrar nos bastidores do projeto e descobrir por que a arquitetura não começa quando surge o primeiro desenho, mas muito antes dele, em um processo de escuta, observação e compreensão. É ali, antes mesmo da primeira linha, que a arquitetura realmente começa.

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